La vita è adesso
Moralismo patético
Eu não queria falar sobre isso, mas acabei sucumbindo ao murmurinho geral.
Minhas impressões sobre o caso Geyse Arruda:
Gosto é como cavidade anal, cada um tem o seu. Não nos cabe discutir o comprimento, a cor, ou a “decência” do vestido (de gosto duvidoso, vale salientar). Ainda mais nós brasileiros, que aceitamos nudismo carnavalesco numa boa, cultuamos as bundas alheias e achamos normal novelas com cenas que beiram o sexo explícito.
Nos escandalizando com um microvestido?
Toda aquela balbúrdia em cima daquela moça, estivesse ela ultra-coberta, ou semi-nua, foi por puro preconceito e não por “zelo aos bons costumes”. Me poupem desse discurso hipócrita.
Muito do que aconteceu aquela moça é, e afirmo com convicção, porque ela é filha de metalúrgico e dona de casa. Se fosse filha de advogados, médicos, socialites (dentre outras “condições” de prestígio) não teria sido expurgada como foi.
Vejo mocinhas semi-nuas exibindo seus decotes em faculdades o tempo todo, com discursos pré-prontos de quem acabou de botar silico e precisa mostrar o investimento; vejo rapagotes com camiseta regata, bermuda e chinelo como fardamento obrigatório; vejo professores trajando um look “Agostinho Carrara” (camisa florida, calça xadrez e capanga pendurada no suvaco), como se tudo isso também não fosse um atentado violento ao bons costumes da moda parisiense.
(Ah! vão catar coquinho)
Chega de tanta hipocrisia, sabe?! Eu sei que existe o adequado e inadequado para certas ocasiões, não estou me contra-colocando à isto, mas convenhamos, as regras não deviam se aplicar apenas a esta pessoa. No próprio vídeo, dá pra ver meninas de barriga de fora e decotes absurdos.
O que não se explica é a falta de respeito da universidade em punir a vítima e ainda corroborar com a atitude preconceituosa de seus alunos. Isso sim é um atentado.
Uma delegada uma vez disse que os estupradores, quando justificam atacar suas vítimas, dizem que “ela provocou” por usar uma roupa sensual. Isso é um contra-senso. Nada justifica a violência.
Acho que a Uniban violentou essa menina, quando a expulsou... Pior pra Universidade, que está internacionalmente taxada como excludente. Os amorais aqui são o reitor e seus corpos docente e dicente.
Molhados, secos... Secos, molhados
Quem tem a força de saber que existe?
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado?
Quem já perdido nunca desespera?
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
Tragicômico
Eu adoro programas ao estilo “mundo cão”. Não me entenda mal, nobre amigo, mas eles são uma terapia para quem os segue por aqui, em Macondo Pessoa (pois esta terra é digna da imaginação de García Marques). O estilo mal-estruturado parece ter um quê de proposital para fazer rir. É de um amadorismo tão bem construído, que eu poderia jurar que é milimetricamente pensado para tal.
Seria como – numa comparação carregada de eufemismo – no teatro grego (tragédia e comédia), embora encenadas ao mesmo tempo. Seria cômico, não fosse trágico. Seria trágico, não fosse cômico... Nesse caso, ambos se aplicam.
Obviamente não sou eu quem vai rir da condição desumana do outro, estou me referindo ao comportamento dos apresentadores e repórteres ao entrevistar vítimas/algozes, comentar os casos, e/ou apresentar as situações.
Cito algumas delas:
Programa Caso de Polícia (exibido pela TV Tambaú, afiliada do SBT):
O cidadão é preso por furto de um “camelo” (bicicleta) e portava uma faca. Durante a entrevista ele dizia merecer uma segunda chance porque não era drogado:
– Você usa drogas? (repórter)
– Não. Eu só fumo maconha (acusado)
– E maconha não é droga? (repórter)
– É não. É uma planta (acusado)
– Você tem algo a dizer em seu favor? (repórter)
– Eu tenho uma banda (acusado)
– Então diga pra Lauro Lima (apresentador do programa) o nome da sua banda (repórter)
– Quem é Lauro Lima? (acusado)
– Você não sabe? Não assiste televisão, não? (repórter)
– Eu só assisto Jornal Nacional e Caminho das índias (acusado)
(Ah! Tá)
Programa Cidade em ação (exibido pela TV Arapuã, afiliada da Rede TV):
Samuka Duarte (apresentador) comenta sobre uma reportagem recém-exibida sobre a apreensão de pedras de crack, as quais ele chama carinhosamente de rapadura do diabo:
– Gente, vocês tem que entender que o diabo (leia-se djábu) coloca coisa (assim, sem concordância mesmo) bunita (entre outras coisas) na vida da gente pra nos enganar. O diabo mostra essa coisa linda, que parece uma rapadura, pra gente achar gostoso.
- Veja, num dá vontade de lamber?
(Nessa hora eu me assustei... Juro!)
Agora, digam-me, sinceramente, é ou não é pra morrer de rir?!
Minha tribo sou eu
Eu não sou plebeu
Não sou hippie, hype, skinhead
Nazi, fariseu.
A terra se move, falou galileu
Não sou maluco, nem sou careta
Minha tribo sou eu
(pobre de quem não é cacique, nem nunca vai ser pajé)



